Leia entrevista do dramaturgo Deto Montenegro, criador da Oficina dos Menestréis

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Deto Montenegro

Esqueça o politicamente correto. Palavrões e gírias são a tônica para falar de cultura e diversidade com o ator, produtor e diretor teatral Deto Montenegro. Um carioca cinquentão nada marrento, quase paulista e amarradão no que faz, Deto criou a Oficina dos Menestréis na década de 1980, um curso inovador de teatro musical. Ele é pai do Matheus e do Yan, irmão do Oswaldo e casado com a Evelyn – todos artistas. “Lá em casa, se nego chega enquanto alguém toca violão, precisa esperar a música acabar pra dar bom dia”, diz. Deto acredita na necessidade de retribuir o bem que a arte lhe fez, e isso lhe motivou a criar o Projeto UP, um condicionamento artístico exclusivo para pessoas com síndrome de Down. Sua leveza e articulação renderam um convite para ministrar um curso na Rússia e para atuar no filmeColegas, protagonizado por atores com SD. Para falar dessa trajetória, batemos um papo com Deto no camarim do Teatro Dias Gomes, em São Paulo.

 

Qual é o grande diferencial da sua metodologia na Oficina dos Menestréis?

É um método focado no reflexo, percepção, intuição, improviso, musicalidade, equilíbrio e dinâmica de grupo. Procurei fazer um trabalho para qualquer um. O objetivo não é formar atores ou atrizes, é dar um condicionamento artístico. É como o esporte: todos podem praticar um esporte, desde o cara que faz um pão na chapa até um diretor de empresa. Assim como você pode correr na praia, ter seu condicionamento esportivo, é bacana também ter seu condicionamento artístico. Todo mundo tem essa veia – uns tem mais, outros tem menos. É igual bíceps: só precisa malhar! Leia um livro, faça um esporte, pratique uma atividade artística. Meu diretor falava: “Quando você não puder subir num palco, ao menos pinte um quadro em branco”. Oswaldo Montenegro (cantor e compositor), meu mestre e irmão mais velho, falava isso. E eu sou fã dele!

 Acabou sendo natural olhar para a diversidade?

Ao longo destes anos eu e meu amigo Candé (Brandão) sentimos necessidade de moldar nosso público, diversificando cada vez mais. Queria que fosse um projeto aberto a todo tipo de pessoa. Daí conheci uma cadeirante e achei que seria irado. Comecei com ela. Depois, fui procurado por um grupo de cegos. Daí vieram com esse papo: “O dia em que você trabalhar com Down, vai ficar apaixonado”. Fui lá e comecei. E agora estou com um grupo de 22 autistas. Eu nunca fiz por inclusão. É claro que eu tenho noção que a minha função como artista é fazer o bem. Mas eu faço pra mim. Eu quero aprender com eles também. Eu sempre tive paixão pela diversidade. Conhecer os tipos humanos foi uma das coisas que a arte me deu de mais bacana.

E você realmente se apaixonou?

Desde a primeira vez. As pessoas com síndrome de Down são fofas, eu me sinto o cara mais amado do mundo. Eu chego no palco e eles gritam: “Deto, Deto”. Pulam quinze no meu pescoço.

E como foi trabalhar com a primeira turma de pessoas com síndrome de Down?

Minha amiga Nadine me apresentou a ONG Carpe Diem, e eles me ajudaram convidando as pessoas. Pensei que ia ser maneiro fazer uma experiência. Eu só tinha um horário livre, chegava aqui às 9 da manhã no domingo. Era cruel… No primeiro dia, vieram oito. Depois, mais doze. Um amigo vai trazendo outro. Nisso a gente está com uns 30. Mas, nestes cinco anos, já passaram uns 60 ou mais por aqui.

Houve algum um preparo ou especialização?

Eu nunca estudei, fui aprendendo junto. Tanto que eu nunca entrei no mundo deles. Eu sempre trouxe eles para o meu mundo. Até hoje aprendo com eles… No começo eu passava um exercício: “Façam uma diagonal”. Daí diziam: “Down não sabe o que é uma diagonal”. Ué, então vamos aprender! Eu nunca quis ter um comportamento paternalista. Sempre tive uma relação muito aberta com eles. Para você ter uma ideia, o projeto se chama UP porque, na época, eu  achava que Down vinha de “down”, “pra baixo”. Depois que eu descobri que era uma homenagem ao médico que identificou a síndrome. Não sabia nem disso… O primeiro espetáculo foi UP. Aí, o segundo virou UP2 e depois UP3, UP4.

Aqui ninguém é tratado como deficiente?

Não tem isso aqui, não. O chicote estala geral! Tem chamego, tem beijo, tem adaptação, tem carinho, mas não tem esculhambação. Uma vez, uma mãe chegou preocupada, com medo da apresentação porque os garotos poderiam ser muito expostos… Falei que ela deveria tirar o filho do teatro. Não tem um lugar que expõe mais uma pessoa do que um palco. “Mas vai dar certo?” Não sei, não tenho a mínima ideia. “Vai ficar bonito?” Não sei, eu faço mas quem julga é a platéia. A arte é frustrante mesmo. Se há um local onde você tem alegrias e frustrações juntas é na arte. E não sou eu que vou poupar seu filho de ter frustrações porque ele tem síndrome de Down. Quantos testes eu fiz na vida e não passei? Quantas frustrações o filho dela ainda vai ter?

Qual é o limite de cada um?

Não sei… Aqui, pra mim, não tem limite. Vamos indo, vamos fazendo. Eu almoço junto com o Ariel (Goldenberg, ator) e a Rita (Pook, atriz), a gente pega onda. O Breno (Viola, ator) dorme lá em casa, é meu amigo. Na última vez que fui deixar o Breno no aeroporto, saí para estacionar o carro e, quando voltei, vi que ele já tinha feito até o check in. O cara se virou sozinho. Ele é descoladão, sacou? Representa o Brasil na ONU por meio de uma ONG, campeão de judô. Qual é o limite dele? Ele fez um longa metragem e foi premiado em Moscou na Rússia. Só se ele for pra Marte agora. O limite deles é infinito.

Quais são as competências de uma pessoa com síndrome de Down?

O Down improvisa mais. Alguns tem dificuldade de dicção. Outros são bem autênticos, têm ternura. Cada um tem sua bossa. Eu, como diretor, contextualizo o estilo de cada um. O método não foca na deficiência. O silêncio deles na coxia é sensacional. Eles não fazem o que querem na hora do espetáculo. Eu gosto de montar a peça com a cara de cada um, fazer do jeitinho deles…

A arte pode realmente potencializar a pessoa com síndrome de Down?

A arte mexe com a sensibilidade, com a musicalidade. Minha proposta foca na autoestima, em permitir que você ache seu jeitão. Aqui tem uma lei: quem brilha é a constelação, não a estrela. É preciso aprender com os amigos, respeitar o silêncio, o público. Acho que tudo isso faz bem, né? Para todo os seres humanos. A arte é fascinante pra qualquer um.

O que podemos esperar do próximo espetáculo, o UP5?

Ah, eu sou suspeito, né? Eu espero que seja um musical maneiríssimo como foram os outros quatro. Estou bem otimista porque estou com uma galera bacana, gente nova. E estamos mais experientes, com repertório novo pra mostrar. Quero seja muito bacana, como sempre foi.“Afinal, no final da brincadeira, o importante é a certeza que a gente brincou. Pelo prazer de estar vivo. De desfrutar de cheiros, tatos, barulhos e afetos. Que a gente ande por aí orgulhoso dos nossos sentimentos e alegrias. Porque perfeito mesmo só tudo junto. Só uma mão não faz o aplauso. Só uma boca jamais fará o beijo. Tudo junto, sim, formará uma imensa risada, que quando for realmente enorme, Deus vai ouvir e nunca mais vai se sentir sozinho”.Bonito esse poema, não? É do Oswaldo Montenegro.

Como fazer para participar do Projeto UP?

Qualquer pessoa pode participar. É só nos procurar e marcar uma aula experimental. Costumo receber até 40 pessoas por turma.  Peço apenas para os pais assinarem um atestado de saúde.O curso é gratuito. As aulas são sempre às terças-feiras, das 17h às 18h30. Mas quem tem a síndrome de Down também pode se matricular nas turmas regulares – nesse caso, a mensalidade é de R$250.

E como é viver de projetos sociais no Brasil?

Hoje, tenho quatro turma sociais e umas nove turmas pagantes. Vivo basicamente destas turmas regulares, das vendas de ingressos e de alguns apoios. Eu tenho a maior paixão pelo que faço, então faço com o maior gosto. Venho trabalhar amarradão. Mas não sou filantropo, não vim  para esse mundo para fazer caridade. Eu não trabalho de graça por caridade, e por isso quero que outras empresas participem, que reconheçam o bem que podem gerar.

Quais são os grandes desafios para montar um projeto social como o UP?

Pô, acho que é so querer. Não tem empecilho, não: é fazer e fazer. Eu tenho o privilégio de trabalhar no que eu gosto. Eu adoro isso e não amarelo de dar aula, dar treino. Além disso, também formei uma equipe. Tenho uma galera boa que segura a onda pra mim sempre que necessário. Eu acho que eu sou gente que faz. Eu faço mesmo, não fico de nheco-nheco! Fazer o bem faz bem, traz o bem. 

Faria tudo novamente?

Mudaria algumas coisinhas, porque a gente vai crescendo e amadurecendo. Mas sou muito feliz e muito realizado. Faria tudo de novo amarradão. Mas quero fazer muito mais ainda! Eu quero fazer uma mistura de todo mundo. Vai ser o maior barato.

Qual o impacto do projeto UP na vida do Deto?

Eu aprendi muito com eles nesses anos todos. Eu ganho muito em termos espirituaisé uma benção poder dar com a arte tudo o que a arte me deu.

 FONTE outroolhar.com.br

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